quarta-feira, 15 de setembro de 2010

EM TEMPOS DE SAUDADE


Numa visita a uma antiga fazenda fiquei admirado com a imponente sede que ali existe. Construção centenária, de esteio e pau-a-pique, bem típica dos tempos da colônia. Porão abaixo do assoalho de taboas espessas de madeira, certamente o árido dormitório dos escravos, que contrasta com os cômodos amplos e ventilados da parte superior. Entretanto, um espaço chamou-me a atenção: a abundância de janelas é exceção em um cômodo. Curioso, indaguei ao dono da casa que logo se prontificou a me explicar. Disse se tratar do “quarto das moças donzelas”. Uma alcova sem janelas. Isso, porque em tempos de casamento arranjado, os jovens apaixonados, não prometidos um ao outro, fugiam para se casar escondido, me explicou. Isso deixou-me pensando em muitas coisas, e uma delas foi sobre a força que tem uma paixão.
Ela cega, emudece, tonteia. Quantas e quantas vezes pessoas apaixonadas, guiadas apenas pelo instinto, cometeram loucuras que depois pudessem se arrepender. Imaginei que para se mudar a arquitetura, como o fizeram naquele tempo, deveria ser comum fugas entre mancebos e donzelas. E aqueles apaixonados que não escapavam o que sentiam?
Quiçá saudade, palavra exclusiva da língua portuguesa. Ela anuncia esse sentimento de falta que experimentamos quando distantes no tempo e no espaço daqueles que estimamos, ou de um momento passado.
A saudade dói, mas se a percebemos é sinal de que temos dentro de nós sentimentos. Quantas vezes sofremos de saudade das pessoas queridas que se foram dessa vida, ou, daquelas que vivem longe.
É engraçado como em momentos de despedida, vem a saudade antes mesmo de nos afastar. Talvez porque sabemos que os instantes juntos estão no seu tempo derradeiro e isso antecipa a falta.
A saudade ilude, mas também desperta ao nos fazer perceber que existem situações que não mais voltarão a acontecer. Ao acordar nos preparamos para o novo, e assim, nos apaixonamos novamente, fazemos novas amizades, vivemos...
Não ser mais adolescente mostra que o mundo pode ser bem mais simples. Não existem verdades absolutas nem dramas infinitos ou amores eternos. A vida passa e com ela os desejos e volições. Mas a sabedoria, essa sim, só aumenta.
Como uma velha casa que acumula história é o registro no espaço de um tempo que não volta mais, guardamos a saudade em nossa memória, seja para nos fazer sorrir ou chorar...

3 comentários:

Anônimo disse...

Magia, encantamento e paixão... O que dizer da sua escrita? Você é um amante das palavras. Simplesmente, FANTÁSTICO, amigo! Te amo muito!

Nara M. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nara M. disse...

Leo!
Adriana Falcão já dizia:
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue..."

Ah... coisa boa é saudade! Saudade do tempo, das pessoas, das coisas! A vida e seus ensinamentos!

Beijoca!