
O dia do patrimônio histórico, comemorado em 17 de agosto, foi lembrado aqui em Paracatu com o plantio da muda de uma paineira, no Largo de Santana, em substituição à imponente árvore que ali existia. Mas, por que se comemorar essa data? Ou ainda, por que se preservar as antigas construções de Paracatu?
Aristóteles já dizia que “é nas cidades que o homem pode realizar a virtude inscrita em sua essência, pois ele é um animal político”. Egípcios, persas, gregos, romanos, incas, maias, entre outros, desenvolveram suas sociedades nas cidades, o campo mais frutífero para a ação política.
Além da importância artística, cultural e social, o meio urbano é o retrato mais fiel da história de seu povo. A dinâmica do espaço narra ascensões e ruínas, progressos e anacronismos, complexidade e simplicidade. Cada parte da urbe é fruto da ação de vários personagens que se relacionam para vencer o meio, produzem cultura e garantem a sobrevivência a espécie.
Do Brasil de 1500 para o país em desenvolvimento do século XXI, a aldeia, a vila, a cidade, representam o marco concreto de como se processou a nossa história. As ruas e as construções corporificam uma espécie de padrão temporal que liga o instante transcorrido, o passado; ao minuto a seguir, o futuro: aquilo que foi e o que está por vir. Reside aí a identidade, alicerce da construção de nossa autonomia.
O geógrafo Yi-Fu Tuan diz que “o entusiasmo pela preservação nasce da necessidade de ter objetos tangíveis nos quais se possa apoiar o sentimento de identidade”. Além do mais, as antigas construções imprimem beleza à paisagem e auxiliam na manutenção da diversidade. Lojas, escritórios, consultórios, clínicas, repartições públicas, enfim, diversos segmentos ocupam imóveis antigos de considerável valor histórico. A dinâmica da cidade, muitas vezes, exige que o espaço seja repensado. Ações de conservação e de preservação mostram que o passado e o futuro podem conviver em harmonia.
A cidade é arte. “Arte e arquitetura buscam visibilidade. São tentativas de dar forma sensível aos estados de espírito, sentimentos e ritmos da vida diária. A maioria dos lugares não são criações deliberadas, pois são construídas para satisfazer as necessidades práticas”. A cidade concebida como arte, segundo o arquiteto Aldo Rossi é um artefato pelo qual “podemos observar e descrever ou procurar compreender seus valores estruturais”. As formas e tipologias arquitetônicas “podem ser lidas e decifradas, como se lê e se decifra um texto”, pois o “desenho das ruas e das casas, das praças e dos templos, além de conter a experiência daqueles que os construíram, denota o seu mundo”. Daí a necessidade de se entender tudo o que se produz e se cria em um determinado lugar.
Preservar nossas memórias, nossos bens materiais e imateriais, é um recurso para a construção da própria identidade. Em um mundo cada vez mais padronizado, decorrente da globalização, a peculiaridade dos lugares torna-se a maior riqueza que uma comunidade possa possuir. Portanto, valorize, conserve e mantenha vivo seu patrimônio, seja ele material ou não. Nossa descendência será imensamente grata por isso.